terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Pacífico

Em cada porto em que ancorar
no alto-mar eu vou estar.

A bombordo
sou gaivota.

A estibordo
maremota.

Sou maré e sou remota.

Estou distante
e estou lontante.
Maresia mergulhante.

Sou âncora e sou timão,
sou cruz e coração.

Navegando e naufragando e em tua rara luz entrando.

follow the Yellow Brick Road

Já dizia o Poeta:
se eu quiser falar com Deus,
vou ter que me recolher,
"bonita que nem Mateus".

Vai ser uma despedida
sem indícios de Adeus.
Numa velha nova vida
vou me unir de volta aos meus.

A Grande Transfiguração

Esta gata siamesa
enrodilhada ao meu colo
É do almoço a sobremesa
para as plantas é o solo.

É uma flor.
E me convida.
Rumo a uma nova vida.
Se esta gata tem beleza...
É porque o amor tem pureza.

folha por folha

É assim que a chuva faz
quando se deita ao capim:
misturada em meio à grama
não encontra mais seu fim.

É assim que me transformas
quando deitas sobre mim:
como a chuva rega a grama
tu me tornas alecrim...

gota por gota

Assim como a chuva
traz a vida ao capim,
por cima de mim te deitas
e me tornas alecrim.

Assim como a chuva cai
devolvendo a vida à flor,
é assim que tu transformas
o meu corpo em amor.

Tu és a chuva que deita
e eu sou o teu capim.
Misturados pela relva
de nós dois não termos fim.

estorninho

Viver para sentir
a magia promíscua
da palavra Almíscar.

Alquimia
açucarada.
Imiscuída,
mascarada.

Conspícua
e arisca,
prostituída
a letra pisca.

sal, estrela

Quando eu te voltar a ver
eu não sei mais quem vou ser.

Talvez seja uma gaivota
quando me mostrar devota.

Talvez seja um albatroz
quando ficarmos a sós.

Ou quem sabe um chafariz
se me apertas os quadris.

Ou um enorme arranha-céu
quando eu destilar meu mel...

Talvez seja alecrim
quando deitada ao capim.
(Sobre o qual a chuva deita
quando deitas sobre mim.)